A construção histórica da juventude e a ascensão da “juvenilidade”1

Agnaldo dos Santos2

Introduzindo o Tema

Nesse aniversário de quatro décadas do chamado Maio de 1968, quando jovens estudantes franceses promoveram movimentos de contestação à sociedade de consumo ocidental (com seus equivalentes na então denominada “Cortina de Ferro”), torna-se bastante pertinente refletir sobre essa categoria social tão festejada por amplos segmentos da sociedade, do Estado até corporações empresariais, que classificamos genericamente de Juventude. Podemos, numa reflexão desse tipo, verificar até que ponto ela possui efetivamente componentes libertários ou, ao contrário, traz consigo grilhões implícitos e extremamente sutis para cidadãos de todas as faixas etárias, mas principalmente para os próprios jovens.

Quando falamos em juventude, muitas vezes nos esquecemos que esse conceito foi construído ao longo de alguns séculos, portanto nem sempre existiu aquilo que conhecemos hoje por “jovem”. Devemos notar que a idéia de geração, ou de identidade etária específica, é uma criação da modernidade, tal qual nos sugeriu Ariès (1978). O autor demonstrou como a “descoberta” da infância e a valorização da adolescência ocorreram em épocas relativamente recentes, nos últimos dois ou três séculos aproximadamente. Quando vemos toda a indústria de consumo voltada para a criança (roupas, brinquedos, programas televisivos etc) jamais pensaríamos que pudesse ter existido um mundo que comparava uma criança a um animalzinho. Tal comparação ocorria pois os óbitos infantis eram muito altos, e as crianças eram consideras “engraçadinhas”, pitorescas, tal qual os gatos e cachorros, que divertiam os adultos. “Não se pensava, como normalmente acreditamos hoje, que a criança já contivesse a personalidade de um homem (…). O sentimento de que se faziam crianças para conservar apenas algumas era e durante muito tempo permaneceu muito forte” (pp. 56-57).

Do mesmo modo que as sociedades tradicionais européias consideravam crianças apenas aqueles seres que ainda dependiam do colo dos pais, sendo posteriormente inseridos no cotidiano comunitário e social, o adolescente e o jovem não estavam apartados do mundo adulto, pelo contrário. Conviviam com os mais velhos, aprendiam o que deveria ser aprendido no dia-a-dia, não existia portanto a possibilidade de uma cultura jovem, uma classe por idade, desenvolver-se no Ancien Règime. Por outro lado, esse mundo não era rigorosamente mensurável e computável, no sentido de que não existia uma preocupação muito grande com a precisão das datas de nascimento, pelo menos entre a plebe. A expectativa de vida era muito curta para nossos padrões, a passagem da infância à maturidade era bem rápida, e chegava-se muito cedo à velhice.

Não há dúvida de que a Antigüidade e a Idade Média no Ocidente valorizavam a juventude, antes de tudo porque valorizavam o guerreiro – belo e viril. Porém, será o século XX que fará uma distinção positiva da adolescência, o que de fato expandirá o senso de juventude:

“A consciência da juventude tornou-se um fenômeno geral e banal
após a guerra de 1914, em que os combatentes da frente de batalha se opuseram
em massa às velhas gerações da retaguarda.
A consciência da juventude começou como um sentimento comum dos ex-combatentes,
e esse sentimento podia ser encontrado em todos os países beligerantes (…).
Daí em diante, a adolescência se expandirá, empurrando a infância
para trás e a maturidade para a frente” (Ariès, 1978, p.47).

Philip Ariès

Ele distinguiu portanto o processo de aprendizado no Antigo Regime (momento na qual a convivência de adultos e crianças criava as condições para a transmissão cultural) do processo de socialização moderna, que constrói a educação via instituição escolar, apartando a criança do mundo “adulto”, particularmente do mundo do trabalho. Isso parece correto quando falamos da criança e do jovem das classes médias urbanas e da aristocracia (strictu sensu, mas também burguesa) que foram criados na nascente sociedade industrial; o mesmo não se pode dizer das crianças e adolescentes que engrossavam o contingente do proletariado fabril na Europa (e sabemos, também no Brasil). Ariès faz notar que o processo escolar medieval não era determinado pela divisão etária, a escola “(…) acolhia da mesma forma e indiferentemente as crianças, os jovens e os adultos, precoces ou atrasados, ao pé das cátedras magisteriais” (idem, p. 187). Contudo, com o surgimento da sociedade capitalista, aquela convivência entre jovens e adultos, entre plebeus e nobres nos antigos colégios foi substituída pela introdução de uma férrea disciplina3 e de uma divisão mais precisa por idade. A partir de agora, passava a existir dois tipos de escola, uma primária para o povo e outra mais prolongada para a nova classe social em expansão: a burguesia.

Ao contrário da nobreza, que em alguns casos até tolerava o analfabetismo entre seus pares, o típico burguês prezava pela distinção formal e real das classes via processo educacional, o que acarretou um aumento nos anos de educação, que fez com que ela passasse a coincidir com os anos da infância e adolescência. Fica mais claro o traço histórico e artificial do senso de classe etária quando lembramos o trabalho infantil no período da Revolução Industrial, que certamente acelerava a introdução da criança e do jovem no mundo adulto, tal qual na Idade Média. “Existe portanto um notável sincronismo entre a classe de idade moderna e a classe social: ambas nasceram ao mesmo tempo, no fim do século XVIII, e no mesmo meio – a burguesia” (idem, p. 194).

Quando falamos então de criança e de jovem, não podemos perder de vista esse recorte de classe social. A historiadora francesa Michelle Perrot, ao tratar da juventude operária européia do século XIX, também mostra como a industrialização desencadeara uma “crise de aprendizagem” entre os jovens, incluídos desde muito cedo no mercado de trabalho, e como esta pessoa jovem tinha poucas alternativas naquela sociedade.

“[A sociedade industrial] está só interessada em indivíduos, ou pelo menos em famílias.
A família é, mais que nunca, a instância de gestão e de decisão no que
concerne aos jovens. Ora, ela tem sua lógica própria que não é
necessariamente a dos membros que a compõem; uma lógica mais holista que
individualista, que privilegia o todo sobre as partes e se aplica especialmente
às mulheres e aos jovens, lógica que a classe operária, em via de constituição, irá retomar.
Sua identidade não se funda nem sobre o gênero, nem sobre a categoria de idade;
ao contrário, ela pretende subsumi-los [grifo meu]. A família – e a classe – operária tem necessidade
de seus jovens, mas lhes pede trabalho, obediência e, em última instância, silêncio.
Eles se exprimem pouco, e, quando o fazem, sua voz é reprimida” (Perrot, 1996: 84).

Por outro lado, “(…) o século XIX tem medo de sua juventude, e particularmente de sua juventude operária, da qual se teme a vagabundagem, a libertinagem e o espírito contestador” (idem, p. 85). Devemos a esta autora também a definição de uma “juventude da greve”, que ocorrera na França em meados do século XIX até o seu findar, com a constituição da moderna classe operária francesa. Seus estudos sobre os movimentos grevistas fizeram notar que não só existia uma participação considerável de jovens trabalhadores nesses eventos, como a própria forma adotada pelas greves (irreverência, disposição inesgotável para o confronto etc) fazia referência a um novo modus vivendi entre o emergente proletariado:

“A greve tem, na maioria das vezes, uma dupla função: ela é meio de pressão
e modo de expressão. No século XX, sua característica instrumental tem por vezes
feito refluir sua densidade expressiva. No século XIX, ao contrário, isso é que era o principal.
A greve é jovem. Os desejos e os planos, a representações e os fantasmas dos grupos
em luta se confrontam sem mediação.” (Perrot, 1984: 09, tradução própria).

Urge, então, refletir por que esse perfil do movimento operário descrito acima, decerto com explícito entusiasmo (mas essencialmente percebido por seus atores como uma “qualidade”) vai perder cada vez mais espaço para uma concepção formalizada, burocrática, de organização sindical.4

O movimento operário europeu do século XIX continha, em seu seio, vários líderes e militantes já a partir dos quinze anos de idade. As antigas oficinas propiciavam aos jovens aprendizes apenas revoltas individuais, tumultos e fugas da tutela rígida do mestre5 no caso da fábrica, o maior número de pessoas nas mesmas condições sociais (e na mesma faixa etária) facilitava ações mais coletivas. Se não constituíam um movimento social de tipo moderno, utilizavam este canal, e principalmente a greve, para expressarem o descontentamento com suas condições laborais e mesmo com sua condição subordinada na família operária.

“Os jovens estão presentes nesses movimentos [de massa],
manifestando-se com ardor. Entre 1871 e 1890, 16% dos manifestantes
detidos têm entre 15 e 19 anos e 6% dos líderes identificados pertencem
a essa faixa de idade. Delineam-se figuras de jovens ‘líderes’,
com a voz potente, o tom da recusa e às vezes o
carisma que arrebata” (Perrot, 1996: 112).

Contudo, em várias ocasiões esse contingente juvenil era pouco respeitado, sequer ouvido.

“Nas minas, a situação dos condutores ou carregadores de
vagonetes é mais desconfortável, e seu papel incitador
depende da estrutura familiar. (…) Reduzidos ao silêncio na família,
também o são nos sindicatos, que sempre estabeleceram cláusulas
restritivas a seu voto; em Seraing, é preciso ter 21 anos para votar numa assembléia.
Suas greves próprias, relativamente numerosas, são
pouco levadas em conta pelos mais velhos, que julgam que eles não
têm voz no assunto, que há um tempo para tudo” (idem, p. 112).

Michelle Perrot
Percebe-se que os jovens mais se manifestam do que se associam, que nos combates de rua típicos da Europa oitocentista eram ardentes nas barricas mas não esqueciam dos prazeres da vida; estamos portanto longe do típico militante asceta bolchevique do século XX. Somente os grandes acontecimentos os mobilizavam (as jornadas de julho de 1848, a Comuna de Paris de 1871), e salvo casos raros, seu cotidiano era preenchido, além do trabalho, por bailes e esportes – hegemonicamente o boxe e a luta de rua, ao contrário da esgrima aristocrata. Como muitos desses jovens rebelavam-se não só contra os patrões, mas também contra a tutela paterna, consideravam os embates como uma possibilidade de mudar de estilo de vida, de serem mais livres, o que pode explicar sua aversão ao institucional.

“A sociabilidade informal, predominante na primeira metade do século, lhes convém mais que as organizações formais e hierarquizadas. Por considerarem os jovens como menores e subordinados, na maioria das vezes, sindicatos e partidos não favoreceram muito sua integração [grifo meu]. Daí sua atração, no início do século, pelos libertários que os acolhem melhor ” (Perrot, idem, p. 117).

Vemos nesse painel que a relação entre o movimento sindical e os jovens operários era, desde a gênese das lutas operárias mais organizadas, no mínimo problemática.6 Não que eles não estivessem presentes, pelo contrário, muitas vezes eram a vanguarda das greves e combates de rua. Mas parece que já naquele momento – fins do século XIX, início do século XX – ocorria uma crescente consciência de pertencimento a uma classe específica, com comportamentos característicos e desejos comuns; já naquele momento o lazer e o consumo (e a sexualidade) disputavam com a política seu espaço no meio de uma nascente “juventude”. Não obstante, será no século XX que testemunharemos as tentativas de construção não só de uma consciência da juventude, mas particularmente da figura do jovem radical ou do jovem revolucionário.

Juventude e Bolchevismo

Ainda que sejam interessantes as analogias que se fizeram ao longo das últimas décadas entre o bolchevismo e algumas religiões, como o cristianismo, no tocante às idéias de vanguarda e de missão (Portelli, 1984), não vamos nesse espaço explorar tais características, sugeridas pela ótima gramsciana. Importa aqui saber que a “mística” do ideário comunista influenciou muitos jovens do fim do século XIX e início do século XX; desta feita seria natural então que os principais teóricos dessa tendência se manifestassem a respeito desses jovens. Lênin deixou vários escritos em que discute a temática da juventude e sua relação com o movimento comunista internacional no início do século XX. Sua visão do jovem trabalhador era a mesma da percepção corrente no movimento operário, inclusive em sua reivindicação histórica, a de que as crianças deveriam dedicar-se integralmente à escola, e o jovem deveria ter uma jornada de trabalho limitada.

Nos “Materiais para a revisão do programa do Partido”, escrito entre abril e maio de 1917, vemos que uma das bandeiras do Partido Operário Social Democrata da Rússia era “o ensino geral e politécnico (conhecimento da teoria e a prática de todos os ramos principais da produção), gratuito e obrigatório para todos as crianças de ambos os sexos até os 16 anos; estreita ligação do estudo com o trabalho social produtivo das crianças” (Lênin, 1976, p. 53). Quanto aos jovens militantes do movimento estudantil, o líder bolchevique era incisivo: só era realmente radical o revolucionário que estivesse afinado com a vanguarda do movimento social, que para ele era o movimento operário:

“É preciso que a União das Juventudes Comunistas una sua formação, sua instrução
e sua educação aos trabalhos dos operários e camponeses, que não se feche em
suas escolas nem se limite a ler livros e folhetos comunistas.
Somente trabalhando com os operários e os camponeses se pode
chegar a ser um verdadeiro comunista” (idem, p. 4, traduzido do espanhol).

Interessante notar que na concepção bolchevique, era necessário subsumir todos os interesses particulares em prol da causa operária, inclusive em um ponto que tornou-se questão de honra para todos os movimentos de identidade juvenil no século XX, que era o serviço militar obrigatório. Mesmo reconhecendo a injustiça no recrutamento militar, que os filhos de trabalhadores são sistematicamente humilhados nas casernas, que os jovens estudantes radicais eram recrutados como uma forma de substituir Voltaire por um sargento, e que os jovens aristocratas eram sempre agraciados, mesmo assim Lênin afirmava que a instrução militar era importante:

“A militarização impregna hoje toda a vida social (…) Que farão contra isso as mulheres proletárias?
Limitar- se a maldizer toda a guerra e todo militar, limitar-se a exigir o desarmamento?
A mulheres de uma classe oprimida verdadeiramente revolucionária jamais se resignarão
com tão desonroso papel. Dirão a seus filhos – logo serás adulto.
Te darão um fuzil. Tome-o e aprenda bem a arte militar. Esta ciência é indispensável para os proletários;
não para disparar contra teus irmãos (…) mas sim para lutar contra a burguesia de
teu próprio país ” (…) [idem, p. 50, tradução do espanhol].

Tais palavras ganham ainda mais significado quando voltamos nossos olhos para o papel da carreira militar na ascensão social de jovens de classes sociais menos favorecidas ao longo do século passado. Só para ficar em dois casos notórios, tanto Luís Carlos Prestes no Brasil (principal expoente do Movimento Tenentista) quanto o capitão Maia da Revolução dos Cravos em Portugal representavam jovens oficiais com tais origens, portanto seria factível buscar relações entre ascensão social via caserna e participação política, ao menos em conjuntura políticas favoráveis a tais manifestações. Sociedades onde a ascensão social não ocorre de forma estrutural (ou seja, onde o crescimento econômico já não abre oportunidades de mobilidade), mas cíclica (ocorrendo mobilidade por meio de intensa e perversa competitividade) é que oferecem esse tipo de carreira mais segura, somando-se ao fato que o status dessa opção já não fica restrito exclusivamente aos filhos de oficiais, abrindo espaço aos demais estratos sociais.

Destarte, fica fácil hoje falarmos nos excessos do tipo de visão descrita na citação de Lênin acima, que paradoxalmente exaltava as qualidades da juventude mas que subordinava suas reivindicações à causa do socialismo. Devemos ter em mente, no entanto, que este arquétipo do jovem revolucionário, que seria o modelo de um novo homem, contribuiu muito para a auto-identidade da juventude no século XX. Eric Hobsbawm percebeu isso quando comenta a ação dos comunistas nos vários cantos do planeta durante a ‘Era dos Extremos’. Refletindo sobre os anos logo após a Revolução de Outubro de 1917, o autor destaca:

“Para essa geração, sobretudo os que, embora jovens, viveram os anos de levante,
a revolução foi o acontecimento de suas vidas. (…) Tomemos o caso de dois jovens alemães
temporariamente ligados como amantes, que foram mobilizados pela revolução soviética da Baviera de 1919;
Olga Benário, filha de um próspero advogado de Munique, e Otto Braun, um professor primário.
Ela iria ver-se organizando a revolução no hemisfério ocidental, ligada e afinal casada com Luís Carlos Prestes;
(…) o levante fracassou e Olga foi entregue pelo governo brasileiro à Alemanha de Hitler (…). Enquanto isso, Otto,
bem mais sucedido, partiu para a revolução no Oriente, (…) o único não chinês a participar
da famosa ‘Longa Marcha’ dos comunistas chineses (…). Quando, a não ser na primeira metade do século XX,
poderiam duas vidas interligadas ter tomado esses rumos?” (Hobsbawm,1996, pp. 79-80).

Indubitavelmente, a jovem república soviética da Rússia, os jovens soldados da revolução, e a esperança no surgimento de um novo homem, em um momento que o capitalismo parecia cair de maduro (década de 1930), tonificavam o paradigma da juventude revolucionária.

Teenagers by America

Mas aqui estamos falando ainda de minorias, muito visíveis, mas minorias. É possível falar realmente de uma emergência da juventude (como fenômeno de massa) a partir dos anos 50, início da época de ouro do capitalismo europeu e norte-americano, além de ser um período de ascensão de governos com recortes desenvolvimentistas em países da periferia, como o Brasil. Será o momento de expansão, para o Ocidente, do american way of life, incluindo o seu comportamento social. Assim, de um mundo que não conhecera a adolescência – da infância saltou-se para a maturidade com as duas guerras mundiais – formava-se a partir de então o universo dos teenagers, com linguagem própria, um padrão de consumo e grupos de convivência contínua, disputando cada vez mais com os espaços tradicionais da família e da igreja. O consumo era o elemento de coesão etária, pois vestia-se as mesmas roupas, utilizava-se os carros e motocicletas “radicais” e ouvia-se a mesma música: o rock’n’roll.

“Tratava-se da primeira geração de adolescentes americanos privilegiados, mas sobretudo
da primeira geração que apresentava uma coesão tão acentuada, um auto-reconhecimento enquanto comunidade
especial com interesses comuns. A figura do adolescente que de tal modo emergia era associada
sobretudo à vida urbana e encontrava seu habitat na high school – que parecia transformada
num cosmo em si – , com os clubes, as atividades esportivas extracurriculares e
lugares acessórios, como a drugstore, o automóvel, o bar para jovens” (Passerini, 1996: 354).

Essa nova construção histórica de juventude, que com as devidas alterações sobreviverá até os nossos dias, destaca os “problemas” que a mocidade desenvolve para o conjunto do corpo social, pois são em geral apresentados como rebeldes sem causa, transgressores, excessivamente lúdicos. A imprensa e as autoridades acabaram por eleger os líderes estereotipados dessa geração (James Dean, Elvis Presley, logo após os Beatles, os Rolling Stones), e os acontecimentos dos anos 1960 (Guerra do Vietnã, luta pelos direitos civis norte-americanos, Maio de 68) apenas reforçaram os contornos dessa grande “comunidade juvenil”. No caso brasileiro, foi paradigmático o conflito entre os estudantes da Faculdade de Filosofia da USP e os estudantes da Universidade Mackenzie (onde existia um grupo denominado Comando de Caça aos Comunistas) em outubro de 1968, que mesmo representando uma pequena parcela da juventude brasileira (universitária), ganhou destaque como o símbolo do ativismo juvenil do período. Já o movimento musical conhecido como Jovem Guarda buscou “tupiniquinizar” a outra vertente do perfil juvenil estereotipado – a dos jovens despolitizados, mas extremamente preocupados com sua afetividade e com os prazeres da vida, por aqui chamada de “ié, ié, ié”.

De fato, não se tratava apenas de uma juventude, mas de várias juventudes; o que não contrariava o fato de que todos esses grupos agora constituíam um estrato consciente de sua condição sui generis. Os membros das classes médias encontravam naquele momento condições de enviar seus filhos às universidades; os filhos dos operários, embora raramente chegassem aos bancos acadêmicos, começavam também a desfrutar da prosperidade econômica:

“Os operários, sobretudo nos últimos anos de juventude, antes que o casamento e
as despesas domésticas dominassem o orçamento, agora podiam gastar em luxo,
e a industrialização da alta-costura e do comércio da beleza a partir da década de 1960
respondeu imediatamente” (Hobsbawm, 1996, p. 301).

Devemos notar que esse período, que representou de fato uma revolução cultural no século XX, apontou para dois fenômenos que nos interessam em particular – a volatilização da consciência de classe operária e a percepção individualista da política. A ampliação do consumo entre as classes trabalhadoras nos países europeus e na América do Norte disponibilizava outras formas de lazer, que durante um bom tempo foi hegemonizado por instituições como, por exemplo, o Estado, o partido e o sindicato (os comícios, as partidas de futebol, os bailes). O espaço público, local dos comícios, das festas, das refeições ao ar livre, começava a perder a preferência para o espaço privado, com a popularização do rádio, da televisão e do toca-discos. Nesse contexto, as novas gerações de militantes, surgidas nos anos 1960, divergiam muito daquela geração de Olga Benário:

“O slogan de maio de 1968, Quando penso em revolução quero fazer amor,
teria intrigado não só Lênin, mas também Ruth Fischer, a jovem comunista vienense cuja
defesa da promiscuidade sexual Lênin atacou. Mesmo para o neomarxista-leninista radical, consciente político,
típico das décadas de 1960 e 1970, o agente do Comintern de [uma peça de] Bretch que,
como caixeiro-viajante, fazia sexo com outras coisas em mente teria sido incompreensível. (…)
Não se podia claramente separar fazer amor e fazer revolução” (Hobsbawm, 1996, p. 326)
.

Michel Foucault
Um aspecto muito interessante dessa juventude de 1968, que gerou tanto jovens politicamente radicais quanto pacifistas (os hippies ), é a semelhança com a juventude romântica do século XIX. Groppo (2000) fez notar que a fuga do consumismo, da agitação da cidade moderna e a preocupação com a integridade moral não eram novidades deste século: O Movimento Juvenil Alemão teria, já no último quartel daquele século, apresentado duas características que o senso comum atribuiria aos jovens contemporâneos, “(…) o totalitarismo – o projeto de uma sociedade exclusivamente juvenil – e o romantismo – a fuga para os campos, para o ‘primitivo’ e para o ‘comunitário’ “ (p.102). Mesmo quando tratamos dos jovens que aventuraram-se nas guerrilhas de inspiração guevarista, chama a atenção algumas semelhanças com o idealismo romântico passado. Pois, se o Wandervogel (Pássaro Migrante, grupo símbolo da Juventude Alemã) promovia marchas para os campos e aldeias da Alemanha, os revolucionários latino-americanos tinham como símbolo a Sierra Maestra da Revolução Cubana. Além disso, um dos teóricos do chamado foquismo e companheiro de “Che” Guevara, Régis Debray, atribuía maior importância à jovialidade do militante do que ao seu conteúdo classista.

“O tom juvenil da propaganda foquista é capaz de (…) derrubar a determinação
classista que aflige o indivíduo abnegado – algo possível através da vida na guerrilha,
que faz com que os jovens burgueses e ‘pequenos-burgueses’ adquiram uma nova
consciência social, oposta à sua classe de origem”, a partir do momento em que “
(…) acontece a reunião de elementos jovens numa ‘comunidade’ guerrilheira” (Groppo, 2000, p. 268).

Não é possível comparar esses dois momentos distantes no tempo sem observar suas peculiaridades e suas diferenças. Há uma distância muito grande entre Werther, personagem de Goethe e um dos símbolos dessa juventude romântica, e James Dean, o jovem rebelde “sem-causa” . Mas parece claro que temos aí uma espécie de tipo ideal do que ficou cristalizado como juventude moderna. Cabe agora problematizá-lo.

Juvenilidade e a “Ditadura da Juventude”

Como vimos, parte da produção sociológica mais recente têm procurado apontar a insuficiência não só da padronização da juventude como uma “classe”, como também da atribuição de uma caráter marginal” ou “revolucionário” aos jovens contemporâneos. De um modo geral, essa produção tem buscado afastar o estereotipo de passividade juvenil, ou seja, de uma juventude que apenas sofre a intervenção de instituições sociais, e que teria, desta feita, uma postura mais propositiva – um protagonismo juvenil, um setor (ou conjunto de setores) que desejaria dialogar e expôr suas necessidades. Talvez o maior paradigma desse protagonismo juvenil seria, atualmente, o movimento Hip Hop, dos jovens pobres e negros das periferias das metrópoles. Estes jovens procurariam, através da música rap e dos grafites desenhados pela cidade, denunciar a violência e as injustiças sociais sofridas nos bairros populares, e utilizariam portanto a estética, a arte, como canal de comunicação social.

Sem questionar a originalidade e as possíveis contribuições dessas manifestações juvenis, caberia perguntar se a “autoconsciência jovem” e sua condição social teriam a mesma pertinência que aquela surgida já em fins do século XIX e desenvolvida ao longo do posterior. Sem igualmente cair em anacronismos de qualquer espécie, é necessário recordar o que foi dito no início – a categoria juventude é uma construção social e histórica , mas como tal está sujeita a sofrer alterações e a interferência da lógica mercantil, que sabemos desde Weber é a que mais tende a colonizar as demais esferas da vida na modernidade capitalista. O antigo é apresentado no mercado como algo “in”, original, logo jovial.

Voltando os olhos para o sociólogo alemão Karl Mannheim, vemos que o autor já percebera nos anos 1940 que transformações sociais tendem a privilegiar o comportamento das novas gerações:

“Condições estáticas levam a atitudes de fidelidade – a geração maisnova tende a adaptar-se à mais antiga, mesmo a ponto de fazer-se parecer mais velha.
Com o fortalecimento da dinâmica social, entretanto,
a geração mais antiga se torna cada vez mais receptiva
às influências da mais nova” (Mannheim, 1982, p.84)

Portanto, sugere que os fatores biológicos naturais característicos da velhice poderiam ser invalidados por forças sociais, e que os dados biológicos quase que podem ser transformados em seus opostos por essas forças sociais. Fazendo uma analogia entre classe e geração, dirá que do mesmo modo que as ideologias produzidas por uma vanguarda influenciam pessoas de classes sociais distintas, também certos impulsos particulares a uma geração podem atrair membros de grupos etários anteriores ou posteriores, se a tendência da época for favorável. A juventude pode, portanto, se transformar num traço cultural de uma época.

Nesse sentido, é possível recorrer a Groppo (2000), que faz uma sugestão interessante para a compreensão da juventude contemporânea. O desenvolvimento de uma consciência etária homogênea teria, de fato, atingido seu ápice nos anos 1960/70, com todos os tipos de rebeldia juvenil e de aparições espetaculares (como já havia indicado também Helena Abramo). Ocorre que essa rebeldia não teria emergido sem uma contribuição significativa da imprensa e, posteriormente, de toda mídia. A emergência da juventude teria sido acompanhada por uma tentativa de controle institucional pelos “adultos” (como já citado, escolas, exército, juventudes nazi-fascistas, juventude comunista etc), uma vez que havia certo temor pela rebeldia e vadiagem juvenil. Por outro lado, houve paralelamente o florescimento de inúmeros grupos “autônomos”, que reivindicavam sua independência com relação à sociedade e aos “velhos”. Desse choque de perspectivas é que surgiria então algo que o autor classifica de juvenilidade, um estilo de vida identificado com o consumo e o bem-estar.

“(…) As instituições modernas de consumo absorveram e transformaram em seus
os valores projetados – mas esvaziados de rebeldia e de real autonomia – pela ‘Juventude’ autônoma
e pela ‘Cultura Juvenil Universal’. Realiza-se na atual sociedade (…) aquilo que Ariès apenas
sugeria anos atrás, que todos querem prolongar a sua adolescência7 (Groppo, op. cit., p. 286, grifos do autor).

Uma conseqüência não prevista no processo de emergência da consciência juvenil é que, tentando fugir das instituições criadas pela sociedade para controlá-los, os grupos juvenis acabariam eles próprios construindo outras instituições que terminariam por enclausurá-los, nesse particular a esfera do consumo (idem, p. 53). Um exemplo bastante útil é a relação dos jovens com as drogas legais e ilegais. Sem entrar aqui no mérito da discussão sobre os problemas que envolvem o consumo das drogas ilegais, é interessante notar como é muito elevado o consumo de cigarros e bebidas entre a juventude. Com a intenção de romper barreiras e delimitar seu espaço, os jovens elegeram alguns hábitos de consumo como sendo indicativos de sua “liberdade” ou de uma pretensa “virilidade” e “jovialidade”.

Pesquisa promovida pela Unifesp entre a população paulista acerca do uso de drogas psicotrópicas (Pesquisa Fapesp, número 52, páginas 14-21), demonstra como o uso do álcool causa dependência entre uma porcentagem considerada alta de jovens do sexo masculino entre os 18 e 24 anos (18,2%). Mais alarmante, (e talvez ainda mais significativo) é o consumo de moderadores de apetite nessa faixa etária, particularmente entre as mulheres: na faixa de 12 a 17 anos, 18% dos entrevistados, e em especial as meninas (27,3% do público feminino) apresentavam um Índice de Massa Corporal semelhante ao dos desnutridos, reflexo de uma “ditadura” da estética, tendo como referência a magreza, em geral associada aos jovens esbeltos.
Por outro lado, podemos suspeitar que as diversas manifestações juvenis, ao empreenderem uma crescente diferenciação da cultura e do modus vivendi da sociedade tida como “adulta”, estariam sendo envolvidas naquilo que Antônio Flávio Pierucci (1999) chamou de cilada da diferença, ou seja, a retroalimentação da postura conservadora por meio de uma reivindicação considerada progressista, o direito à singularidade ou ao exotismo. Salvo os casos dos jovens de postura política conservadora ou assumidamente desinteressados por política, os grupos com intenções de interferir em seu meio social, ao insistirem numa diferenciação entre eles e os “adultos”, cairiam no inevitável isolamento ou desprezo dissimulado por parte destes últimos.
Algumas Conclusões

Compreender as implicações dessa construção histórica da Juventude Moderna na participação de jovens em instituições tradicionais, como sindicatos e partidos, pode nos levar a uma maior clareza sobre o pessimismo expressado pelo senso comum atual em relação à participação política da juventude. Ou seja, é possível que o elo de ligação entre as gerações, que fazia por exemplo jovens operários se formarem no chão da fábrica (e eventualmente na luta sindical), estabelecendo assim um reconhecimento mútuo, tenha se rompido, dificultando assim a ação política tradicional junto às novas gerações operárias. Nunca é demais lembrar que exatamente uma década depois dos acontecimentos de 1968 jovens operários organizaram grandes jornadas grevistas no ABC Paulista e protagonizaram a vanguarda da redemocratização do país; isso sem cartilhas comunistas nem aulas de ciência política, mas a partir de sua condição social e traços de identidade de classe, de migrantes e também de jovens.
Na verdade, podemos inclusive problematizar aquilo que já virou ponto pacífico entre estudiosos do tema, qual seja, a inaptidão das instituições políticas em atrair os jovens.8 O que observaríamos é a acentuação gritante do individualismo em todos os estratos sociais, que ironicamente utiliza a visão estereotipada da juventude para prometer um mundo mais significativo, mais provido de sentido, por meio do consumo e do prazer. Desse modo, os jovens do presente estariam condenados a seguir o modelo de juventude criado pela sociedade de consumo na segunda metade do século passado – eternamente jovial, consumidor e hedonista. E os valores incrustados nesse tipo ideal não favorecem lutas coletivas de nenhum tipo, consideradas “ultrapassadas e anacrônicas”. O reconhecimento da pluralidade de identidades e recortes sociais, típicas da modernidade capitalista e que foi elevada à enésima potência com a mundialização do capital das últimas décadas, não pode nos levar a abdicar de uma análise que procure leva em conta a totalidade do fenômeno social sob a lógica de reprodução capitalista, pois como dizia Marx nas primeiras linhas de O Capital, “a sociedade capitalista se constitui em uma grande exposição de mercadorias”, e hoje o tipo ideal de jovem é também uma mercadoria que aprisiona as mais diversas juventudes nos quatro cantos do planeta.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ABRAMO, Helena Wendel. Cenas Juvenis (Punks e Darks no espetáculo urbano). São Paulo, Scritta, 1994.

ARIÈS, Philippe. História Social da Criança e da Família. Rio de Janeiro, Zahar Editores, 1978

FOUCAULT, Michel. Vigiar e Punir. Petrópolis, Editora Vozes, 1997, 16a edição.

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SANTOS, Agnaldo dos. Debutantes e Outsiders – Juventude Metalúrgica e Sindicato no ABC Paulista. (Dissertação). Programa de Pós-Graduação em Sociologia. Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, 2001.

Esse texto é baseado em reflexões realizadas na dissertação de mestrado do autor defendida na FFLCH-USP em 2001
Doutor em sociologia pela USP e membro do Núcleo de Estudos d’O Capital (NEC – PT/SP).
Confira também Michel Foucault, 1997, pp. 154-161.
É preciso, contudo, fazer justiça à história do sindicalismo metalúrgico do ABC paulista, que soube, nos momentos de enfrentamento com o aparato repressor da ditadura militar, lançar mão de expedientes muito parecidos com aqueles usados pelos franceses 100 anos antes. Kátia Paranhos demonstra em sua pesquisa como o sindicalismo metalúrgico de São Bernardo estabelecia ema nova relação com os trabalhadores já desde meados da década de 1970, criando a recriando novas linguagens e condutas mais politizadas no cotidiano operário. “Ao folhearmos as páginas do jornal Tribuna Metalúrgica, observamos não apenas novas falas e imagens políticas, econômicas e sociais dos “lugares da luta”. Há também um peso significativo para as imagens culturais, aos planos de formação sindical e política, aos projetos de renovação da imprensa e às atividades de lazer. Assim, outros enunciados imagéticos vêm juntar-se à animação operária” (Paranhos, 1999, p. 260).
Sobre a característica dessas revoltas individualizadas, ver DARNTON, Robert. O Grande Massacre dos Gatos e outros episódios da história cultural francesa. Rio de Janeiro, Graal, 2001.
A valorização do trabalho adulto trazia embutida a defesa que muitos sindicatos fizeram de uma remuneração menor para os mais jovens. Foi uma herança da hierarquia das corporações e guildas, em que os jovens eram aprendizes.
Conferir a entrevista com o escritor inglês Nick Hornby, na Revista da Folha, 9/07/2000, páginas 22-23. “Nossa cultura não quer mais adultos porque é mais fácil fazer dinheiro com jovens. Além disso, hoje não existe nenhuma razão para crescer se você não quiser. No passado, crescer estava associado ao trabalho, a ter filhos etc. (…) O que é ser adulto hoje, quando empregos, roupas, música e todas essas coisas são para todos, jovens ou velhos?”
Ainda que possamos também admitir essa questão dos limites organizativos de partidos e sindicatos na atualidade, como tive oportunidade de discutir em Santos, 2001.

Fonte: http://www.mouro.com.br/Juvenilidade.html